Vivendo sob ameaças
Um velho amigo dos tempos do movimento estudantil no Rio de Janeiro, meio dos anos 60, me disse há poucos dias: " o crescimento da extrema direita está aí para 10/20 anos". Me lembrei lendo um artigo da edição de ontem do diário espanhol " El País ".
Abordando ameaça de destruição da União Europeia, o colunista Andrea Rizzi informa que " as forças nacionalpopulistas lideram as pesquisas de opinião na Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Áustria, Bélgica e Romênia". Não são invenciveis, acabam de sofrer derrota na Holanda e podem também ser derrotadas nas próximas eleições hungaras.
Pessoalmente uso etnonacionalismo com o mesmo significado de nacionalpopulismo.
Na Europa o eixo maior da atuação dessa área política é o combate à imigração, bode expiatório para as frustrações sociais e insucessos econômicos. Como base ideológica servem-se facilmente do identitarismo que lhes proporciona os pretextos para transformar diferenças de detalhe em diferencialismo ou gueto e tentar apagar o principal: as profundas afinidades dentro da humanidade.
Esta postura mobiliza e caminha para o sucesso: pode consolidar-se um grande apartheid na Europa e África.
Ao mesmo tempo, voltamos às fases históricas em que basta ter força armada para legitimar golpes, agressões militares ou econômicas e invasões. E agem de forma não negociável, a menos de serem forçados. É essencial ter isto em mente. Os grandes teóricos do nacionalismo populista e do expansionismo territorial são os mesmos ou se completam, influindo em grandes potências que procuram novos entendimentos entre si.
Têm um ponto comum que pode ser-lhes muito útil: o poder de oligarcas com origens financeiras, mafiosas ou tecnológicas. Não significa que a totalidade do mercado financeiro e das empresas de inovação tecnológica seja conduzida por oligarcas. É importante sublinhar também.
No continente africano a maioria dos 54 países têm regimes de etnonacionalismo ou fortes oposições com tal ideologia. Dezenas de governos estão baseados na fraude, voltados para enriquecimento ilícito, capaz de produzir oligarquias locais, de origem civil ou militar. Só a repressão brutal mantém estes regimes. Um twite de intelectual nigeriano viraliza neste momento por toda a África. O autor prevê que a "Nigeria ( ou o que sobrar dela) vai estar na situação do Haiti dentro de cem anos".
Um amigo africano me chamou a atenção para intelectual do Congo Brazzaville que prevê exatamente a mesma coisa para toda a África subsaariana.
Estas previsões são alertas e nas últimas semanas tivemos exemplos que podem confirmar ou não esses alertas: fraudes gigantescas das eleições camaronesas e tanzanianas, com repressão sangrenta dos protestos e, no sentido oposto, o movimento de rua que derrubou a ditadura em Madagascar.
Mas as ameaças são reais.
Na Ásia, o etnonacionalismo tem grande força em vários países arabes, Israel, Índia e vamos acompanhar a orientação do novo governo japonês.
Na América Latina, a extrema direita, sozinha ou com setores da direita tradicional, está com favoritismo no Chile e forte presença na Colômbia. Na Argentina, o partido de Milei venceu facilmente as eleições legislativas da semana passada.
Aqui, os grandes temas de luta são segurança humana (ou há ou não haverá nada sólido), custo de vida, ritmo de crescimento econômico, democracia com eleições corretas. Para agravar, estão os impactos externos. Qualquer um destes pontos é peso pesado, definindo quem é quem e decidindo eleições.
Com a democracia ameaçada - por vezes assustada - é óbvia a urgência de resistir adequadamente às varias formas de ameaça ou violação dos direitos humanos. Sejam agressores estatais ou não estatais. É que sem respeito pelos D.H. qualquer discurso ou projeto político, econômico, social ou cultural, é falso.



Sempre uma leitura muito informativa. Dessa vez, muito preocupante. Pra onde caminha a humanidade?
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