Migrações e Cidadania
Zohran Mamdani venceu as eleições primarias dos Democratas de Nova Iorque e será candidato a Mayor da cidade. Tem apoio de Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez, Paul Krugman. Zohran é cidadão norte-americano nascido fora dos Estados Unidos. Sublinho este detalhe apenas porque adiante há referência a tal situação, frequente no mundo de hoje.
Eu e o pai de Zohran - Mahmood Mandani - fomos colegas na década de 1990 no CODESRIA, em Dakar, e voltamos a nos encontrar na Universidade de Cape Town. Mahmood Mandani foi para os Estados Unidos lecionar na Colúmbia, mais ou menos quando eu regressei ao Brasil.
A mãe de Zohran é Mina Nair, cineasta que conheci nos mesmos períodos e da qual lembro o filme " Mississipi Masala". Pai e mãe nascidos e criados nas rotas Índia-Uganda. Zohran nasceu em Kampala e passou a infância nomadizando até se fixar nos USA com 7 anos, obtendo mais tarde a cidadania.
Paul Krugman dá alto relevo à candidatura de Zohran Mamdani, hoje com 33 anos, por representar uma resposta ao racismo que novamente cresce junto com as campanhas antimigratórias.
Paul escreveu no seu site, ontem: "Agora que eles estão no poder ê possível ver o ressurgimento do racismo puro em todas as políticas do governo Trump, grandes e pequenas [Paul cita em especial a saúde]... E o Senador Tommy Tuberville do Alabama basicamente declarou que os eleitores de Nova Iorque eram subhumanos dizendo: ' Esses ratos do centro de Nova Iorque vivem às custas do governo federal '...".
E acrescenta: " Pessoalmente não tenho ilusões de segurança. Sim, sou um cidadão branco nativo. Mas minha esposa e sua família são negras, e alguns de meus amigos e parentes são cidadãos americanos nascidos no exterior."
Tenho referido muito Paul Krugman em sala de aula e em textos, sempre sobre Economia. É a primeira vez que cito este prêmio Nobel a outro nível, porque a definição de cidadãos americanos nascidos no exterior é central. Para a campanha de Zohran Mamdani e para as relações sociais e construção cultural, nos EUA e outros países incluindo o Brasil.
Naturalizados, quem pode duvidar da cidadania brasileira de Clarisse Lispector, Otto Maria Carpeaux. Salim Miguel, Elio Gaspari, Ritchie, Manabu Mabe, Guido Mantega, e não tenho espaço para mais ?
O exemplo dos Democratas de Nova Iorque e a definição de Krugman sobre a cidadania de alguns seus amigos e parentes, surgem no momento de novas alterações às leis de nacionalidade em países europeus. São alterações para mais dois ou três anos de residência para obter cidadania e tendências de só permitir agrupamento familiar após dois anos de residência de um dos membros da família.
Filhos de imigrantes nascidos na Europa continuam não sendo automaticamente cidadãos de pleno direito desses países.
No continente africano as leis de nacionalidade são, com uma ou outra exceção ( acima de todos, a República de Maurício ), fortemente restritivas, muitas vezes mais que as europeias.
Na América Latina ainda ninguém mudou os princípios base. Não é impossível que aconteça, dada a influência do trumpismo em correntes políticas por aqui.
Enfim, igualmente importante é a migração ligada a grandes investimentos e super salários. Não penso nos vistos gold, mas no futebol a propósito da vitória do Al Hilal sobre o Manchester City, dois clubes cheios de jogadores imigrantes. Durante anos, o capital europeu no futebol enfraqueceu os clubes latino-americanos e africanos, levando os jogadores de alto e até médio níveis.
Agora, os sauditas dão claro sinal de capacidade para fazer o mesmo com clubes europeus. E o exemplo do Al Hilal já promove ideias em clubes de vizinhos bilionários, por exemplo dos Emirados ou Qatar.
Se precisarem nas seleções, é óbvio que pela naturalização vão buscar cidadãos nascidos no exterior.
Tudo isto nos dá o quadro geral do grande confronto em veloz crescimento no mundo, sobre poderes globais e pontos cruciais das Cidadanias.



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